sábado, 4 de fevereiro de 2012

Próximos do fim



Foto: Danielle Luce Cardoso

Era uma terça-feira e você decidiu que era a hora de terminar tudo o que havia começado para que pudesse recomeçar sua vida. Nessa terça-feira de noite quente você resolveu se livrar de tudo o que lhe afligia a alma e tudo o que lhe trazia dor física e espiritual. Então você começou seus diálogos com seus problemas e um a um foi tentando resolver os que aparentemente deveriam ser resolvidos primeiro. 
Minha presença diante da situação parecia irrelevante. Eu sentia que você nem percebia que eu estava ali, observando tudo. Decidi que deveria ir e deixar você resolvendo seus problemas sem me dar conta que eu fazia parte desse todo que de tão pesado, estava te trazendo angústia e sofrimento. Pensava que eu pudesse ser seu alívio em meio a tanta dor... Engano meu. 
Quando estava pronta pra ir, você, aos prantos me pediu desculpas e as palavras que eu mais temia ouvir, saíram da sua boca: “Acabou. Tudo acabou”. Não estavam sendo ditas a mim. Não naquele momento. Mas eu sabia que uma hora eu ouviria de você tudo o que eu jamais desejei ouvir. Esta noite adormecemos nos braços um do outro e a quarta-feira chegou parecendo que o ontem nem tinha existido. 
Passamos o dia celebrando a nossa alegria e aproveitando ao máximo a companhia um do outro, sabendo que o nosso fim estava muito próximo. E a noite chegou e novamente nossos sonhos adormeceram um nos braços do outro. 
Quinta-feira veio e o dia correu tão depressa que me fazia ter vontade de parar o tempo só para te ter ao meu lado para sempre. A noite desceu sobre nós, fria e escura, quase sem estrelas. E enquanto eu contemplava o céu, você chegou, me abraçou, me beijou o rosto e pude sentir que o tão temido momento havia chegado. 
E foi assim, numa quinta-feira de noite fria e sem estrelas que eu ouvi você me dizer tudo o que eu não queria ouvir. A nossa conversa adentrou a madrugada e entre palavras, lágrimas, beijos, carinhos e desejos, havia algo de muito maior naquilo tudo. Essa sensação tomou conta de mim e não queria que ela me abandonasse. Era uma sensação de quietude e calmaria que provém de um só sentimento: O Amor. 
A sexta-feira chegou e com ela a minha vontade de nunca mais acordar do sonho que era viver ao seu lado. Então eu dormia... Apenas dormia. Meu corpo não tinha vontade de se levantar daquela cama. Da sua cama que por muitas vezes se tornara nossa cama. De vez em quando eu ouvia sua voz me dizendo “levanta... chega de dormir... acorda... você tem que se alimentar...” e eu não querendo acordar desse sonho, me dedicava cada vez mais ao travesseiro que abrigava todo seu perfume e à cama que carregava todo o calor dos nossos corpos. “Abriga-me até domingo?” – perguntei - Desejando dizer: “Abriga-me por toda a vida.” 
O sábado chegou e tentei fazer com que nossos últimos momentos juntos fossem lindos. Anoiteceu e novamente dormimos nossos sonhos nos braços um do outro. 
O domingo veio carregado de todo tipo de sentimentos e perguntas sem respostas e decidimos prolongar um pouco mais esse fim. A tarde chegou tão pesada que novamente dormimos em nosso abraço. Anoiteceu e eu não queria sair de seus braços. “Vamos tomar banho juntos?” – eu não queria passar nem um segundo longe de você – e fizemos amor com tamanha sincronia que imaginei que esse momento seria eterno. Ficamos acordados até a madrugada na intenção de passar o maior tempo possível, somente sentindo o calor e a presença um do outro e na madrugada de domingo, vencidos pelo sono, dormi em seu peito e seus braços me envolvendo num forte abraço. 
A segunda-feira veio trazendo a certeza que não podíamos mais adiar esse momento. Um dia nunca correu tão depressa. Nessa noite de segunda-feira adormecemos rápido. Não teve conversa debaixo dos lençóis, não fizemos amor nem contamos histórias. Apenas beijos de amor e boa noite e dormimos carregando o peso do fim em nossos corações. 
O dia amanheceu e a terça-feira não queria acordar. Parecia sentir toda a tristeza que traz o fim de algo tão belo e desejado. E era um final tão lindo que desejamos que nunca acabasse. “Como é lindo o nosso fim”, eu disse. “É porque é o começo.” – Você disse – e no meu coração suas palavras eram como beijos quentes de carinho. 
E a hora de você partir chegou. Alguma troca de olhares, alguns beijos e poucas palavras restavam para serem ditas: “Penso que tenho tanta coisa para te oferecer ainda...” – tenho tanto Amor guardado em meu peito – pensei. “Obrigada por tudo” - ele disse, “não te dei nada... só te amei... só te amo... EU AMO!” e o silêncio falava alto aos nossos corações.  “Me desculpe” – você disse – “por me fazer feliz?” – eu pensei – mas me calei. Não precisava dizer o quão feliz você me fez. O meu sorriso quando eu estava ao seu lado já dizia tudo. Minha alegria era evidente e por isso me calei. E deitada em seu peito, embalada pelo som do seu coração, chorei.
E de mãos dadas saímos pela rua à espera do momento da despedida.
Um beijo cheio de amor e carinho selou esse momento.
“Tchau”. “Tchau”. Você partiu e pela primeira vez não me olhou nos olhos ao se despedir. Não se virou e não me mandou um beijo lá de longe. Pude ver que não me olhava naquele momento de despedida para que eu não percebesse que seus olhos estavam cheios das mesmas lágrimas que inundavam os meus.
E cada lágrima que escorria dos meus olhos ecoavam essas palavras... Eram suas palavras para sempre gravadas em meu coração. “Como é lindo o nosso fim”, “É porque é o começo...”...
...e fim.

2 comentários: