segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Primeiro dia no Convento


Foto: Danielle Luce Cardoso - Daniel

De repente um louco adentrou o recinto, com roupas sujas e desconfiança, olhou para mim e disse:

- Moça, me dá um papel e uma caneta?

- Caneta não – disse eu – Só tenho lápis.

- Lápis não moça! Eles vão apagar.

- Quem diabos são eles? se contente com o lápis – é só o que posso te dar.

E ele se pôs a escrever. Escrevia nada com coisa alguma. Parou, me olhou e disse:

- Eu gosto de você. Você gosta de mim?

Era um louco chamado Daniel.

- Por que não haveria de gostar Daniel? Perguntei.

Ele simplesmente ignorou o que eu disse, me deu as costas e se foi.
Horas mas tarde retornou. De banho tomado e cheio de si. Havia vestido sua melhor roupa – uma calça verde de hospital psiquiátrico – e foi logo me mostrar.

- Moça, me dá um papel e uma caneta? - Insistiu ele.

- Só tenho lápis – disse eu – caneta não.

E ele se pôs a escrever nada com coisa alguma. Parou, me olhou e sorriu um sorriso completamente sem dentes e disse:

- Você tem dó de mim?

- Eu não, Daniel. Por que haveria de ter? - Eu disse à ele.

- Eu te amo. Tem dó de mim?

Paralisei-me. Ele me olhou. Me sorriu um sorriso completamente sem dentes. Me deu as costas e se foi. O louco Daniel que me ama por conta de um lápis e uma folha de papel.

- Eu te amo! Tem dó de mim?

E foi-se embora...


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