segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

TRAVESSEIRO/COMPANHIA


A saudade de repente me invadiu o peito com a força das ondas em dia de ressaca. Descontrolada, veio entrando sem pedir licença e se instalou no melhor e mais quentinho lugar da casa (meu coração). O frio que sinto agora nenhum cobertor pode afastar. Somente seu corpo junto ao meu e o fogo que queima em seu peito para me aquecer nesse momento.

Eu sempre achei que frio fosse coisa física: Se está frio, se sente frio e pronto. Mas agora, agasalhada, com minha manta mais quentinha, abraçada ao meu travesseiro/companhia de anos, percebo o quão verdade é algo que me foi dito há não muito tempo: Certo dia, disseram-me “isso é bom, sinal que sentes falta de alguém”. E comecei a olhar o frio com outros olhos. Mas não qualquer frio.

Agasalho-me, me enrolo em minha manta mais quentinha, abraço o travesseiro/companhia de anos e percebo que começo a traí-lo. Ele, que por anos acolheu meus sonhos, lágrimas, alegrias, desejos, gozos... Que nunca (ou quase nunca – outro dia me tomaram meu travesseiro/companhia e percebi que começava a não sentir mais tanta falta dele) deixei que alguém repousasse seus sonhos sobre ele, afinal, sempre foi MEU fiel companheiro. Ele que nunca havia abrigado outros sonhos além dos meus, se alegrou. Mesmo não tendo minhas lembranças repousadas sobre ele, não se entristeceu. Senti-me traída, pois afinal ele sempre me foi fiel.

Mas meu travesseiro/companhia não me traía naquele momento. Ele, percebendo que um dos meus sonhos, mesmo fora dos meus pensamentos, permanecia deitado sobre ele, fazendo-lhe companhia, se alegrou. Talvez fosse esse o meu sonho mais desejado durante todos esses anos em que meu travesseiro/ companhia acolheu e guardou tudo o que desejei e sonhei. Naquele momento, em que meu travesseiro/companhia de anos foi tomado de mim, nós dois nos alegramos. Eu, por ter ao meu lado, repousando, um dos meus sonhos mais desejados (talvez O MAIS desejado) e ele, por ser abrigo dos sonhos do meu sonho.

Mas agora, sinto frio. Agasalhada, enrolada em minha manta mais quentinha e abraçada ao meu travesseiro/companhia de anos que, fiel companheiro permanece aqui, tentando me abrigar do frio da saudade que sinto de você: MEU SONHO MAIS DESEJADO.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Primeiro dia no Convento


Foto: Danielle Luce Cardoso - Daniel

De repente um louco adentrou o recinto, com roupas sujas e desconfiança, olhou para mim e disse:

- Moça, me dá um papel e uma caneta?

- Caneta não – disse eu – Só tenho lápis.

- Lápis não moça! Eles vão apagar.

- Quem diabos são eles? se contente com o lápis – é só o que posso te dar.

E ele se pôs a escrever. Escrevia nada com coisa alguma. Parou, me olhou e disse:

- Eu gosto de você. Você gosta de mim?

Era um louco chamado Daniel.

- Por que não haveria de gostar Daniel? Perguntei.

Ele simplesmente ignorou o que eu disse, me deu as costas e se foi.
Horas mas tarde retornou. De banho tomado e cheio de si. Havia vestido sua melhor roupa – uma calça verde de hospital psiquiátrico – e foi logo me mostrar.

- Moça, me dá um papel e uma caneta? - Insistiu ele.

- Só tenho lápis – disse eu – caneta não.

E ele se pôs a escrever nada com coisa alguma. Parou, me olhou e sorriu um sorriso completamente sem dentes e disse:

- Você tem dó de mim?

- Eu não, Daniel. Por que haveria de ter? - Eu disse à ele.

- Eu te amo. Tem dó de mim?

Paralisei-me. Ele me olhou. Me sorriu um sorriso completamente sem dentes. Me deu as costas e se foi. O louco Daniel que me ama por conta de um lápis e uma folha de papel.

- Eu te amo! Tem dó de mim?

E foi-se embora...


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

INQUIETUDE

Foto: Danielle Luce
Conversa estranha essa de ontem à noite. Estava tudo bem e de repente, alguns palavrões e uma inquietude. Não entendi o porquê da sua irritação. Fiz-te uma confissão e esperava o seu entendimento. Você disse que entendeu e quando repliquei... Quantas pedras na sua mão.

Então, quis saber o porquê da sua atitude. Silêncio... Insisti, pois não entendia por qual razão estava sendo tratada daquela maneira, afinal eu estava me abrindo para você.
Você disse que estava tudo bem e quando tentei continuar... “Assunto encerrado”.

Então o diálogo se tornou um monólogo e por uma hora era só eu me abrindo comigo mesma. Enquanto o assunto persistia, do outro lado o silêncio. Mudei de assunto e então você ressurgiu como quem acorda de um sono profundo e continuou o meu já mudado assunto. Mas eu, cansada do meu monólogo (conversar com a gente mesmo é muito exaustivo), me despedi de você – Um beijo, boa noite! – e fechei os olhos.

A escuridão tomou conta de mim. Eu sentia que no outro dia, tudo estaria mudado entre nós. Não seríamos mais tão cúmplices um do outro e novamente a inquietude aproximou-se e se apresentou guardiã de meus sonhos. Quando abri os olhos, o dia já estava claro. As horas não passavam e a vontade de te encontrar ia crescendo dentro de mim.

Fiz minhas tarefas do cotidiano na esperança de que o tempo corresse mais depressa. Meu dia se fez infinito e cada segundo convertia-se em horas. Então a noite chegou. Já era quase madrugada quando você apareceu com seu mais lindo sorriso... Desisti de entender como sua simples presença consegue serenar toda a INQUIETUDE. A angústia, a espera, a escuridão, TUDO, tudo foi deixado para trás e naquele momento só existia você. Você, seus olhos, seu sorriso, seu abraço, seus beijos e meu coração... Totalmente entregue ao seu.